terça-feira, 5 de maio de 2009

Bem-vindos, gente das antropologias económicas

O Antropolíticas ganhou hoje um nome mais comprido, para abrigar sem ambiguidades os estudantes de Antropologia Económica da FCSH.

Sejam bem-vindos, e aproveitem para fazer o download do programa desta segunda parte da cadeira, até agora leccionada por Adolfo Yañez-Casal. Está disponível aqui.


Aproveito para lembrar que as questões focais do actual estudo direccionado do Ensaio Sobre a Dádiva são:

- Em que medida a ideia de Mauss de que a dádiva está na origem da troca e do mercado é posta em causa pelo facto de, quando havia potlatch, kula ou grandes concentrações maori com entrega de presentes, haver também paralelamente feiras e mercados onde se regateava?

- Em que medida os objectos de prestígio que circulavam no kula, no potlatch ou entre os maori podem corresponder a proto-moedas, como sugere Mauss? Ou são, em vez disso, anti-moedas? Ou, ainda, a questão não é relevante, visto tratar-se de um facto social total?

- Tratando-se embora de factos sociais totais, em que medida é que estas instituições estudadas por Mauss são fundamentalmente económicas? Ou serão fundamentalmente políticas? Ou, mais uma vez, isso não é relevante?

Convido-vos a utilizarem a caixa de comentários deste post, para irem discutindo as vossas impressões ou dúvidas acerca destes assuntos.


Já agora, uma rápida consulta à base de dados da biblioteca da faculdade indicou a existência de 3 exemplares disponíveis.
No entanto, pela obra que é, aconselho a compra na Feira do Livro.

8 comentários:

Anónimo disse...

Aviso não há "Ensaio sobre a dádiva" na feira do livro, eu mesmo confirmei.

Até pelo que li e, tou quase a terminar o livro, parece-me que se tratam de instituições fundamentalmente politicas, que são mediadoras de relações de poder.

Pedro Mogárrio

(Paulo Granjo) disse...

Pode fazer o favor de argumentar a conclusão a que está a chegar, Pedro?

Obrigado por abrir "as hostilidades".

Anónimo disse...

Eu apoio-me nas conclusões de mauss, em que ele diz que nos contextos da dádiva, o interesse comandava as acções da dádiva, mas era um interesse diferente do interesse mercantilista individual; era sobretudo um interesse político, há interesse em obrigar. Embora ele esteja mais especificamente a falar do surgimento da palavra interesse nos textos da india clássica.

Mas também já mesmo ao acabar o livro, mauss fala da dadiva como um instrumento para fazer paz, ou seja evitar a guerra, sendo a prórpia causa do desenvolvimento humano. O argumento base é de que,foi quando os humanos souberam defender os seus intereses sem recorrer à violência, que surgiu a dádiva.

No fundo vemos que nos contextos que Mauss nos traz isso está presente, nos seus comportamentos de extremos do "temor" à "hospitalidade". A desconfiança dos Trobiandeses, em que uma tensão entre parceiros kula está latente. Mas dádiva faz com que não lutem.

A questão do prestigio social que é adquirido nas dadivas, do potlatch, kula, maori, parece que os bens de prestigio estabelecem a organização social, estabelecendo uma hierarquia entre pessoas. Na medida em que estes bens só são dados e retribuidos entre 2 pessoas estatuto igual, mas com uma desigualdade em que um tem mais prestigio, fazendo portanto que o de prestigio inferior seja elevado. Repare-se que as dadivas são medidas em grandeza, com modelo ideal nos chefes.


Trata-se de se querer ser "grande", mas o que significa isso? Em suma poderia-se dizer que uma dadiva aproximar os intervenientes do estatuto do chefe e, o chefe deve distanciar-se dos outros, fazendo dadivas mais importantes; procurando assim manter-se assim a hierarquia com o chefe no topo. Então não se tratará de quem tem autoridade, legitimidade para mandar e, para ter os beneficios de uma alta posição social?

Pedro Mogárrio

Anónimo disse...

Aproveito para fazer parte "das hostilidades" e deixar a minha opinião. Penso que estamos perante instituições fundamentalmente económicas, uma vez que, apesar de serem visíveis os aspectos políticos e/ou religiosos, julgo serem os económicos os pilares que suportam os outros aspectos, ou seja, parecem-me ser as actividades económicas que proporcionam os fins e os meios para o desenvolvimento das actividades sociais.
Para Marcel Mauss a frase “Além encontra-se a mesma coisa aumentada” indica um investimento económico, Mauss refere ainda “o que a terra origina” (searas, rendas e impostos, minas e gados) e afirma que a dádiva que dela é feita enriquece o doador e o donatário.
“É preciso retribuir mais do que aquilo que se recebeu. A volta é sempre mais cara e maior.”
Será que um indivíduo que pertencesse a um patamar economicamente inferior conseguiria as mesmas oportunidades que um indivíduo de situação económica elevada?

Hugo Ribeiro
Turma B

Anónimo disse...

Professor a 1ª questão não foi discutida na aula, apesar de term-mos de entregar a ficha de leitura na proxima segunda. Por isso aproveito para perguntar aqui,a primeira pergunta é revelante para o facto de pôr em causa a teoria, de que a dadiva antecedeu a troca mercantil?

Anónimo disse...

esqueçi-me de assinar:Pedro Mogárrio

Rosemary disse...

Professor, em relação à primeira questão penso que responde logo por ela própria, isto é, a dádiva (pelo que eu entendi) não pode estar na origem da troca e dos mercados pois estes já funcionam paralelamente mas, funciona sim, como uma manutenção das boas relações e da paz. Existe de facto uma obrigação de dar e por conseguinte de receber (no caso dos Trobriand) mas não será pelo facto de estes terem "medo" do conflito?

A segunda questão, penso eu, não é relevante pois falamos de coisas em certa parte distintas. De um lado o valor simbólico dos voygu'a ou dos taonga e do outro a moeda como equivalente. Os voyagu'a trocam-se no kula, são objectos de prestígio, e os taonga são impregnados de hau apenas são trocados em certas ocasiões, enquanto que, a moeda pode ser usada em qualquer troca.

Na terceira questão, a meu ver, estas intituições são simultaneamente económicas e políticas, ou seja, tanto o Kula, Poltlatch ou as trocas Maori como o mercado, coexistem paralelamente. Nos primeiros dão-se as trocas simbólicas (com as suas regras e ritos específicos) ou queimam-se os recursos armazenados para "obrigar" a tribo vizinha a fazer o mesmo com vista a fortalecer relações (reciprocidade), enquanto que no segundo existe um mercado onde se barafusta e regateia por objectos ou alimentos que se trocam por moedas.

!Mantenho muitas dúvidas ainda!

Joana Galhardas

Antropologia disse...

Uau, nao sabia desta possibilidade de expressar a minha opinião em relação ao tema. Se soubessem o quanto meu coraçao acelerou a ler esta obra e a pensar nestas questoes, se ao menos tivesse expresso teria aliviado na altura!!
Em relaçao a dimensao politica, tenho pouco conhecimento da visão "antropolitica", li quase nada, e sinceramente tenho receio de ser etnocentrica ao dizer que estas instituições sao fundamentalmente politicas. Os relatos indigenas estão carregados da explicaçoes de âmbito espiritual e moral, e assim sendo são estas que mais despertam a minha curiosidade. Posso detalhar a minha humilde opinão num proximo comentario se estiverem interessados (hoje estou cansada).
Sei que o comentario vai um pouco fora de tempo, mas só entrei hoje neste blog, de qualquer forma este tema interessa-me muitissimo por isso estou aberta a debates!

Philippa Sousa Otto